Na novela "Quem Ama Cuida", Dora, interpretada por Mariana Ximenes, de 45 anos, vive um romance com André, personagem de Henrique Barreira, de 25. Na trama, a personagem reencontra o desejo depois de anos de casamento e repressão. Fora da ficção, relacionamentos entre mulheres mais velhas e homens mais jovens também passaram a ser discutidos com maior abertura, especialmente quando envolvem mulheres que chegaram aos 40 anos com mais autonomia e clareza sobre o que desejam para a própria vida.
Mas o que está por trás dessa mudança? Em entrevista exclusiva ao Purepeople, a psicóloga Daniela Pereira (CRP: 09/014487), especialista em terapia sistêmica de casal e família, avaliação psicológica e psicoterapia de adultos, analisa as transformações emocionais, sociais e financeiras que ajudam a explicar esse cenário.
Para Daniela Pereira, é necessário observar esse fenômeno dentro de um contexto maior de mudanças sociais e culturais. Segundo a especialista, atualmente as mulheres acima dos 40 anos possuem uma autonomia emocional, financeira e sexual maior do que a observada décadas atrás.
Essa transformação também alterou a maneira como muitas mulheres enxergam o próprio desejo e suas escolhas. De acordo com a psicóloga, elas já não precisam necessariamente seguir o modelo tradicional no qual o homem deveria ser mais velho, mais experiente ou ocupar uma posição financeira superior.
A própria experiência de chegar aos 40 também ganhou novos significados. Muitas mulheres chegam a essa fase conhecendo melhor a si mesmas, entendendo o que querem e se permitindo experimentar relações que realmente façam sentido.
Por isso, para a especialista, mais do que falar em uma simples preferência por homens mais jovens, é importante falar sobre liberdade de escolha. Como resume Daniela, trata-se de uma mulher que pode pensar: "Eu posso escolher uma relação pelo que ela me proporciona emocionalmente, afetivamente e sexualmente, e não apenas pelo que a sociedade espera de mim”.
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A autonomia também pode transformar a maneira como a mulher se posiciona dentro de um relacionamento. Conforme explica Daniela Pereira, quando ela não depende emocional ou financeiramente de um parceiro, consegue escolher permanecer com alguém porque realmente deseja aquela pessoa, e não porque precisa da relação para se sentir segura.
Esse processo pode favorecer uma redescoberta da sexualidade. Depois dos 40, algumas mulheres começam a questionar quanto de suas vidas foi dedicado às expectativas relacionadas à família, ao casamento, à maternidade e à sociedade.
Surge, então, uma pergunta importante: "Mas o que eu desejo? O que me faz bem? O que eu quero viver agora?".
Nesse contexto, uma relação com um homem mais jovem pode, em alguns casos, fazer parte desse processo de reconexão com o próprio desejo e com a feminilidade. A psicóloga, porém, ressalta que não existe uma idade ou um determinado tipo de parceiro capaz de definir essa redescoberta. O mais importante é que as escolhas estejam de acordo com quem a mulher é e com aquilo que deseja viver.
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Assim como qualquer relacionamento, uma união com diferença de idade pode apresentar benefícios e dificuldades. Segundo Daniela, entre os aspectos positivos estão a troca de experiências, novas perspectivas, companheirismo, desejo e uma possível sensação de renovação para os dois.
Por outro lado, diferenças em projetos de vida, maturidade emocional, filhos e expectativas para o futuro podem se tornar desafios.
Para entender se a escolha está ligada a um desejo genuíno ou à necessidade de validação, a especialista propõe uma reflexão: "Eu estou escolhendo essa pessoa porque eu quero viver essa relação ou porque preciso que essa relação confirme o meu valor?".
Sentir-se desejada e valorizada pelo parceiro é diferente de depender desse olhar para se sentir jovem, bonita ou suficiente. Para Daniela, uma relação saudável não precisa funcionar como uma prova de que a mulher continua desejável. Ela pode ser simplesmente uma relação baseada em escolha, reciprocidade, respeito e liberdade.
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O julgamento social também aparece como um dos obstáculos. Daniela Pereira observa que ainda existe um peso diferente quando uma mulher mais velha se relaciona com um homem mais jovem.
Enquanto homens mais velhos com mulheres jovens frequentemente têm seus relacionamentos naturalizados ou até valorizados socialmente, a inversão desses papéis pode provocar comentários, críticas e questionamentos sobre as intenções da mulher.
Esse cenário pode gerar insegurança, vergonha ou até a necessidade de justificar constantemente a relação. Por isso, a psicóloga considera importante que o casal construa uma espécie de fronteira emocional diante das opiniões externas.
Familiares e amigos podem, naturalmente, apresentar preocupações legítimas. A questão é diferenciar uma preocupação baseada em fatos concretos de um preconceito sustentado apenas pela diferença de idade. Para a especialista, diálogo, respeito e segurança entre o casal ajudam a diminuir o poder que o julgamento externo exerce sobre a relação.
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Para Daniela, não existe um número específico de anos capaz de determinar se um relacionamento é saudável. Mais importante do que a diferença de idade é observar a qualidade da relação e o momento de vida de cada pessoa.
Entre os assuntos que precisam ser discutidos estão filhos, vida profissional, questões financeiras, local onde pretendem morar, cuidados com os pais, estilo de vida e expectativas para o relacionamento.
A maturidade emocional também precisa entrar nessa conversa. Duas pessoas com uma diferença significativa de idade podem construir uma relação madura, respeitosa e equilibrada. Da mesma maneira, pessoas com idades próximas podem viver relacionamentos disfuncionais.
Por isso, segundo a especialista, a pergunta mais importante não é "Qual é a diferença de idade ideal?", mas sim: "Essas duas pessoas conseguem construir um projeto de vida que faça sentido para ambas?".
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A análise também encontra respaldo em uma pesquisa mencionada pela revista Claudia. A antropóloga Mirian Goldenberg, da UFRJ, pesquisa os arranjos conjugais brasileiros há mais de três décadas e dedicou um livro inteiro ao tema, intitulado "Por que os homenpreferem as mulheres mais velhas?".
Ao entrevistar 52 casais formados por mulheres mais velhas e homens mais novos, Mirian Goldenberg encontrou um resultado que contraria parte do senso comum: esse tipo de união tende a minimizar jogos de dominação, disputas e conflitos considerados comuns em casamentos convencionais.
Para a antropóloga, o amadurecimento feminino também pode estar associado a uma nova compreensão da própria liberdade. E, nesse cenário, como resume a ideia apresentada pela Claudia, quando a mulher amadurece, ela descobre que a melhor rima para felicidade é liberdade.